Comentario ao filme Samsara



Esse comentario nao é meu, mais é muito interessante, vejam:

Como posso ser livre se não tive a oportunidade de escolher esta vida?, diz Tashi a Apo, quando retorna da casa do monge que lhe mostrara os desenhos com figuras que faziam sexo.

O príncipe Siddharta já tinha 29 anos, era casado com um filho quando resolveu sair em busca da iluminação. É preciso desconstruir para construir novamente, é preciso possuir para perder.

Os ciclos da vida levam à contínua transformação tão temida pelo ser humano porque é o ciclo da vida e morte, integração e desintegração. É preciso escolher para ser livre, é preciso mudar para ser vivo!

Desta vez você foi longe demais, diz Apo a Tashi. De fato, vemos no filme a trajetória de um homem que ousa transgredir para ir em busca do sentido da vida. A capacidade de dar significado ao pensamento precisa ocorrer por meio da experiência real. E várias serão as experiências de Tashi através da ousadia e transgressão.

Ele sai do mosteiro porque ousa pensar sobre o que está acontecendo com o seu corpo, seu coração e a sua mente. Ousa buscar a mulher desejada, casa, tem filho, trabalha no campo como um homem comum.

Estaria ele a procura de uma experiência emocional que o colocasse mais próximo aos seus pais internos? Este seria um conhecimento fundamental que lhe faltava para se sentir adulto e autônomo? Porém Tashi não é um homem comum; ele ousa pensar e cria problemas por isso. A busca e o enfrentamento do novo raramente é uma situação pacífica.

No mosteiro, ele perturba a ordem porque quer sair para a vida mundana; na vila casa-se com Pema, que lhe mostrou os prazeres do sexo carnal e já era comprometida, briga com o comprador de arroz, interfere na tradição do vale; é punido por ousar transgredir.O rapaz apaixonado por Pema, aquele que não queria mudar a tradição do vale, tinha medo de ousar e brigar pelo que queria porque isto significa transgredir. Ele fica sem a mulher amada, agarrado às antigas tradições.

Tashi ainda não tinha sentido na pele a dor profunda da necessidade da escolha. Essa dor, este incômodo começam a surgir com o seu interesse por Sujata, a bela camponesa que há tempos o provocava com sua beleza e sensualidade. A curiosidade, a atração e o sexo com outra mulher fazem Tashi se sentir muito perturbado com seu ato de transgressão desta vez. Ele escolhe voltar para o mosteiro, mas ainda parece que, mais uma vez, vai em busca de um lugar que o proteja das vicissitudes da vida e do mundo mental, assim como quando ficou por anos em meditação. Não pensar seria um modo de evitar a dor da vida? A ausência de desejo é a ausência da dor. O desejo implica em frustração, o desejo caminha em direção à formação de vínculo.

Eu desejo e preciso de você, por isso me vinculo. Essa condição coloca o ser humano mais próximo de sua condição real de ser precário e imperfeito. É justamente Pema, sua mulher, aquela que o iniciou nos prazeres carnais que o chama para a realidade da vida. Ela também ousou transgredir, teve coragem para buscar ser feliz. Ela tinha noção de seu lugar no mundo.E esta dor é vivida profundamente por Tashi quando finalmente depara-se de fato com o significado de suas escolhas. Só aí então, a meu ver, Tashi adquire a condição de pensar plenamente, de sofrer a dor da existência, de ser precário, por ser apenas um com tantos desejos e conflitos.

A última cena faz pensar em um nascimento, porém muito diferente das cenas iniciais do filme. É um parto dolorido porque existe o conflito da dúvida, o desespero de descobrir-se somente um homem com desejos e arrependimentos, medos e vontade de acertar, de não saber qual é o seu rumo. Qual seria a escolha mais importante na vida dentre todas as outras?

Posted by Anônimo |

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